O bacana da internet é que você acaba conhecendo
diversas pessoas que se interessam pelo mesmo
assunto, por uma indicação de um leitor do La
Nostra Casa, acabei conhecendo o blog dele. Depois
de trocar alguns emails com ele, fizemos uma
pequena entrevista sobre o mercado de arenas e
estádios.
O Ricardo é um expert no assunto, só vendo o
curriculum dele já dá para perceber! Clique
aqui
e conheça um pouco mais sobre o nosso entrevistado
atraves de seu blog.
Ricardo,
como você se envolveu nesse assunto tão
interessante que é ser consultor em gestão de
Arenas?
Foi
um processo de transformação profissional. Sou
originário do mercado financeiro. Depois de uma pós
segui para o marketing, daí para o marketing
esportivo, para a gestão esportiva, e finalmente
para a gestão de arenas e espaços públicos.
Qual é a sua opinião sobre o projeto do
Palmeiras/WTorre na modernização do Palestra
Itália?
Eu
não conheço o projeto. Eu conhecia o anterior. Sei
apenas que se trata de um equipamento com
capacidade para 46.000 lugares, mas nunca vi o
projeto, suas especificações técnicas, e os
conceitos em que ele foi concebido (como modelo de
negócio).
O Palmeiras tem hoje uma média de público em torno
de 15 à 20 mil pessoas por jogo dependendo do
campeonato que disputa, qual seria a sua previsão
quando o estádio estiver pronto?
Certamente
que existe uma demanda reprimida por parte dos
torcedores do Palmeiras. O quanto a média irá
aumentar depende de muitos fatores, inclusive que
independem do equipamento, como o sucesso e a
qualidade do time nas competições. Uma arena
moderna permite em tese, por exemplo, a venda de
carnês antecipados da temporada, mas isso ainda
esbarra em alguns obstáculos aqui no Brasil, como
culturalmente uma preferência pelas compras sem
tanta antecedência, e o temor de mudanças de jogos
por questões políticas (vide o recente episódio no
Engenhão), o que acaba tornando a questão qualidade
do time como muito importante para o aumento da
média. Mas, se à médio prazo essa média pulasse
para algo próximo a 35 mil torcedores, seria muito
bom. O sucesso também será traduzido pela
capacidade da Arena em atrair o público e gerar
receitas, não apenas no “game day”, mas nos outros
dias da semana. E aí, facilidades de acesso,
conforto, segurança, e oferta de bons serviços
serão fundamentais.
O método de financiamento usado por Palmeiras e
Grêmio são muito diferentes dos europeus, por
exemplo?
Uma
operação de “funding” para esse segmento ainda não
é fácil no Brasil. Não sei qual a forma utilizada
no caso do Palmeiras pela WTorre, mas provavelmente
da mesma forma que ela utiliza em outros projetos
imobiliários. Desconheço qual a forma utilizada no
projeto do Grêmio, se é que já existe alguma
concluída. Na Europa, o percentual de recursos
públicos nos projetos é bastante alto, e nos EUA
bem menos. Aqui as PPP`s seriam bem vindas, mas
elas ainda não decolaram nem em outros setores da
economia.
Você entende que a capacidade de 46 mil pessoas é
suficiente para a Arena Palestra Itália?
Sim.
Essa capacidade é suficiente, por exemplo, para
sediar jogos de Copa do Mundo e finais de
Libertadores, e permitirá o atendimento da demanda
reprimida por um bom tempo.
O projeto da Arena Palestra Itália está preparada
para receber um teto retrátil. Você acha necessário
esse complemento para o estádio?
Sinceramente,
eu acho que oferecer a cobertura para os
expectadores é mais importante que para o campo
(considerando a realidade brasileira). A cobertura
do campo permite que o equipamento possa receber
alguns tipos de eventos que normalmente são
direcionados para arenas indoor, para climatização
em lugares de temperaturas extremas, ou para poupar
o gramado no caso de chuvas intensas ou neve. Teto
retrátil é um item de alto custo (o estádio
olímpico de Pequim previa sua utilização mas foi
cortado do projeto para baixar os custos), portanto
precisa ter seu custo x benefício muito bem
analisado dentro do projeto. Como não conheço o
projeto, não sei sequer qual o sistema de teto
previsto, pois eles diferem em termos de custo e
funcionalidade.
Naming Rights, você acha que a cultura brasileira
vai aceitar bem essa tendência mundial e qual é a
importância financeira na amortização da obra dessa
forma de patrocínio?
Nos
EUA, existem hoje pelo menos 5 grandes projetos de
arenas em construção (todas com custos acima de U$
1 bilhão), que tem aproximadamente 1/3 do custo
total financiado por um contrato de “naming”. Não
acredito que o empecilho maior seja cultural.
Acredito que o problema maior é de visibilidade. A
empresa que se interessa em pagar por uma operação
deste tipo quer exposição, e muita mídia
espontânea. Aqui no Brasil a maioria dos
conglomerados de mídia não é sensível a isso,
principalmente a empresa que praticamente
monopoliza a mídia televisiva nacional. Uma pena,
porque seria uma fonte alternativa de receitas
muito interessante.
Você acha que a Copa de 2014 é muito importante
para um projeto de uma Arena Multi Uso ser bem
sucedido, ou iniciativas como a do Palmeiras e
Grêmio que desenvolveram os seus projetos
independentes da Copa, também são uma saída?
Sediar
algum jogo de Copa do Mundo sempre é interessante
para o clube, pela projeção que uma transmissão
para bilhões de pessoas pode proporcionar. Mas a
renovação da infra-estrutura esportiva brasileira é
uma necessidade, com Copa ou sem. Ela pode servir
como uma força propulsora, mas não como objetivo
final. Nossos clubes precisam enxergar que ter uma
arena moderna, segura e confortável, e
conseqüentemente rentável, é item de primeira
necessidade num projeto de viabilidade de longo
prazo. Prevejo que os grandes clubes que tiverem
sob sua gestão algum equipamento desse tipo nos
próximos 5 anos, se distanciarão bastante em termos
econômicos dos demais. Chamo a atenção também para
as oportunidades, principalmente nas médias cidades
brasileiras, na construção de arenas indoor.
Futuramente quando a maioria desses projetos
estiverem prontos, eles serão sustentáveis apenas
com a bilheteria dos jogos do time proprietário ou
será necessário a realização de eventos e shows
para se ter uma Arena rentável?
A
idéia de um equipamento que seja utilizado somente
como um “estádio de futebol”, e com o faturamento
restrito à bilheteria, é ultrapassada. É preciso
faturar com o “game day”, e fazer com que existam
formas alternativas de faturamento nos demais dias
da semana. A idéia de que a principal forma de
faturamento alternativo é a realização de shows, é
equivocada (ainda mais num campo de grama natural
sem que exista um sistema de remoção do gramado).
Mais interessante é possuir espaços para convenções
de médio porte, exposições, entretenimento, lazer,
escritórios, e área comercial, isso claro,
dependendo da área disponível e das características
de cada projeto.
Na minha visão, os pontos principais que um estádio
tem que ter são: Ótima visibilidade de qualquer
local da arquibancada, estacionamento e
principalmente uma localização central. Para você,
quais são os principais pontos em uma Arena
moderna?
De
forma resumida, do ponto de vista do consumidor do
serviço, facilidade de acesso, conforto (não
confundir com luxo), segurança, e opções de
serviços e lazer alternativo.
Se você conseguir, explique para nós leigos, o que
um estádio precisa ter para ganhar as 5 estrelas da
FIFA.
A
Fifa se preocupa basicamente com esses aspectos que
eu citei acima. Ela não se preocupa com os aspectos
comerciais e de rentabilidade da arena. A
preocupação principal é com a comodidade, a
segurança, e a facilidade de acessos externos e
internos, não só para o público como também para
todos os profissionais envolvidos no espetáculo
(atletas, funcionários do estádio, imprensa etc.).
Qual é a sua opinião sobre o futuro do mercado
brasileiro nessa área?
A
minha expectativa é de muitos projetos para os
próximos 10 anos.
Como estão a qualidade dos projetos para 2014?
Ainda
não sabemos com certeza que projetos serão esses.
Somente após a escolha das cidades sede, veremos
quais são os projetos reais e quais os de
mentirinha. Existem projetos especulados que não
fazem o menor sentido. São verdadeiros delírios
eleitoreiros.
Por
que o Engenhão não faz parte dos planos do estado
do Rio de Janeiro para a Copa de 2014?
O
Engenhão foi concebido como estádio olímpico, e por
suas características (inclusive condições de
expansão até 60.000 assentos), deve ser utilizado
em mega eventos dessa natureza. O Maracanã ainda é
o estádio mais indicado para uma Copa, depois de
reformas e adaptações, é claro.
Você está trabalhando em algum projeto nesse
momento?
O
mercado ainda é muito restrito para profissionais
dessa área. Nesse momento estou envolvido num
projeto de ampliação e reforma de um estádio no
interior do estado do Rio de Janeiro.
Dos estádios europeus que você conhece, qual é o
seu preferido, tanto em arquitetura quanto em
funcionalidade?
Difícil
apontar um. Existem vários muito bons. Considerando
apenas os europeus, eu destacaria como muito
interessantes, a Veltins Arena, usada pelo Schalke
04 da Alemanha, o do Vitesse na Holanda, e a
Millenium Arena em Gales, pelos recursos
tecnológicos. O de Munique, o Amsterdam Arena, e o
novo Wembley (apesar do custo), também são
excelentes. Mas se a pergunta é qual o melhor e
mais avançado projeto de espaço multifuncional de
todos os tempos, a resposta é fácil. O Coliseu
romano.
Como você trabalhou com Amsterdam Arena Advisory,
você saberia me responder a diferença de decibéis
de um jogo do Ajax na Arena de Amsterdam com o teto
fechado e aberto?
Gostaria de deixar claro que a minha relação
com o AAA foi apenas a de parceiro em alguns
projetos. No Amsterdam Arena assisti a 3 jogos e
todos com o teto aberto. Nos EUA assisti 2 jogos na
arena da Universidade do Arizona, um com o teto
fechado e outro com ele aberto. A sensação me
pareceu ser mais intensa com o teto fechado, em
termos de decibéis, mas gostaria de comprovar isso
se um dia a Bombonera pudesse ser fechada.
Você acha que a crise financeira americana pode
influenciar os financiamentos dos projetos
brasileiros de Arenas Multi Uso?
Com
certeza vai influenciar, pois lá fora já está
influenciando. O comitê olímpico da Inglaterra já
acenou com algumas dificuldades. Mas é bom lembrar
que um dos ciclos mais prósperos de projetos desse
tipo no mundo aconteceu na década de 90, num
ambiente de recessão (das maiores economias) e
turbulência em vários mercados (Ásia, Rússia e
América Latina). Crises são cíclicas e o mundo não
para por causa delas. A velocidade das coisas é que
diminui.