Mais informações sobre a Arena na Carta Capital

Agora é a vez do Tiago Soares do Observatório Verde que me passou o link dessa ótima reportagem que a revista Carta Capital fez sobre a nossa Arena:


Chegamos à era das arenas?


A seis anos de receber a Copa do Mundo, o Brasil parece estar muito distante da realidade do chamado padrão Fifa em seus estádios. Mesmo o primeiro que pode atingi-lo em território brasileiro não está entre os pré-selecionados pelo comitê organizador da Copa de 2014, mas pode ajudar o País a entrar na era das arenas multiuso que vêm substituindo os estádios mundo afora.

Se tudo correr como estão estabelecidos os planos, o Palmeiras será o primeiro clube brasileiro a ter um equipamento --para usar um termo mais moderno-- compatível com os padrões estabelecidos pela entidade que comanda o futebol no mundo. A Arena Palestra Itália, nome que o estádio Parque Antarctica receberá após a conclusão de sua reforma, prevista para acabar em dezembro de 2010, poderá receber até 45 mil espectadores, todos acomodados em assentos numerados --42 mil se for abrigar um evento Fifa. Nenhum desses lugares será de arquibancada, setor identificado com o torcedor mais popular.

Após passar 14 anos procurando a melhor maneira de modernizar o seu estádio, o clube paulistano fechou uma parceria com a WTorre Arenas para concretizar a Arena Palestra Itália. O Palmeiras e a empresa do setor imobiliário assinaram um contrato que prevê investimento de 250 milhões de reais em reformas que não se limitam ao antigo estádio, mas se estendem a melhorias na área social do clube, como a construção de quadras poliesportivas e de tênis, além de uma nova sede administrativa.

Acordos desse tipo, firmados entre a iniciativa privada e clubes esportivos, são fechados às dezenas ao redor do globo. Mesmo no Brasil, onde nenhum projeto deslanchou de maneira substancial, é possível listar alguns times que se dizem no caminho de ter um estádio moderno: Grêmio (fundou uma empresa apenas para cuidar do projeto), Figueirense, Atlético Paranaense (que parecia ser o primeiro que chegaria a ter um equipamento multiuso de fato, mas não consegue concluir o projeto integral da Arena da Baixada) e a Ponte Preta (que assinou um acordo que prevê a demolição do Moisés Lucarelli).

Mas a parceria fechada entre Palmeiras e WTorre causou espécie por um detalhe bastante peculiar: a empresa de empreendimentos imobiliários arcará com cada centavo dos 250 milhões de reais previstos para entregar pronta o reformado estádio do time alviverde. Em contrapartida, ganha o direito de explorar comercialmente por 30 anos a arena multiuso.

"O que chama a atenção é que a WTorre vai bancar toda a despesa, e isso não é nada comum quando se trata da construção de estádios", diz Tomaz Alves, colunista da revista Trivela, especializada em futebol internacional. "Já vimos o contrário acontecer, como fez o Arsenal (time da primeira divisão do Campeonato Inglês), que bancou toda a construção da Emirates Arena com recursos próprios, mas tinham um plano de arrecadação para pagar, que contava com a arrecadação, por exemplo, da venda de camarotes, da comercialização antecipada de carnês."

Alves reproduz a pergunta que ecoou nos meios de comunicação, que é a grande dúvida quando se trata da parceria: "Qual vai ser a parcela da WTorre na venda de ingressos, na comercialização de camarotes, na realização de eventos, nos direitos de nome do estádio, que são as grandes fontes de receita de uma arena multiuso?"

"Nós temos dois tipos de produtos nesta parceria com o Palmeiras. Os primeiros são aqueles vinculados às áreas patrimoniais, como a comercialização das cadeiras cativas, de camarotes", explica Luis Fernando Davantel, executivo da WTorre Arenas. "Esta 'família' de produtos dará 5% das receitas líquidas, livre de impostos, nos primeiros cinco anos, com acréscimo de 5 pontos percentuais nesta receita a cada cinco anos. Assim, no fim do período de 30 anos estabelecido em contrato, o Palmeiras terá 30% das receitas líquidas destes produtos".

A outra 'família' de produtos, que Davantel chama de operacionais, como a receita arrecadada com a realização de shows, feiras, palestras, congressos, festas e a exploração de estacionamentos, praças de alimentação e lojas, começa com 20% da receita para o Palmeiras. E segue o mesmo mecanismo de acréscimo a cada cinco anos dos produtos patrimoniais, chegando aos 45% ao fim do contrato.

O modelo é visto com bons olhos pelos dirigentes palestrinos, porque prevê a participação na receita gerada, não nos resultados atingidos. "Isso muda totalmente o negócio porque quando você participa da receita, tanto faz a operação. Se der lucro ou prejuízo, o problema é do investidor", diz João Mansur, que trabalha no departamento de planejamento do Palmeiras. "Quando você participa do resultado, pode ter uma série de ingerências do parceiro. Isso foi um cuidado muito grande que foi tomado pelo Palmeiras porque ter que ingerência durante 30 anos é uma coisa, participar da receita é outra".

A parceria parece ser realmente benéfica ao Palmeiras, ainda mais se for levado em conta que a parte da receita que caberá à WTorre vem apenas do que a empresa chama de "atuação patrimonialista", ou a exploração do aluguel do espaço. "Se vier um produtor de shows que vá trazer a Madonna para o Brasil e ele fala que o melhor local para este show é a arena multiuso do Palestra Itália, a WTorre cobrará aluguel desse promotor e ele ficará com a receita da venda de ingressos", explica Davantel. "A mesma coisa acontece em relação ao Palmeiras, que é o promotor dos jogos: toda a bilheteria do futebol, qual é o valor do ingresso, se ele cobra o setor vermelho 100 reais ou nada, são decisões exclusivamente do clube”.

Mesmo em relação à exploração dos camarotes e das cadeiras cativas, que pareciam ser uma fonte de renda exclusiva da empresa que vai reformar o Palestra, o clube paulistano terá garantida uma fonte de renda no mínimo igual à de qualquer outro clube que promova um jogo de futebol. "Nós vamos alugar camarotes por um período de dois, três, quatro, cinco anos, assim como as cadeiras cativas", diz o executivo da WTorre. "Agora, independentemente de você ter um camarote, você terá que comprar um ingresso para ir ao evento. O aluguel te dá acesso àquele espaço, mas para cada evento promovido no espaço, é preciso comprar um ingresso. E sempre que o promotor do evento for o Palmeiras, os valores arrecadados na bilheteria são 100% do Palmeiras".

Como pode se observar, os números indicam uma perspectiva favorável ao provável futuro bem-sucedido daquela que deve ser a primeira arena multiuso em terras brasileiras. Tanto é que, sem ao menos ter colocado a primeira pedra do novo Palestra Itália no ar, a WTorre já vê com boas perspectivas a possibilidade de construir novas arenas multiuso. "Ainda não há contrato assinado, mas sim conversas bastante adiantadas, em fase de pré-assinatura, para pelo menos outros três clubes", revela Davantel.

Estas possibilidades, somadas às iniciativas de novas arenas multiuso já citadas no início, estejam no estágio em que estiverem, trazem à tona uma questão que está longe de ser respondida: o Brasil comportará diversos equipamentos desse tipo, ancorados em clubes de futebol, quando tem um campeonato nacional cuja média mal ultrapassou as 17 mil pessoas por jogo na edição de 2007?

Fonte:
Carta Capital

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