Por Luiz Gonzaga Belluzzo
Sou homem e nada do que é humano me é estranho.”
(Homo sum et nihil humani a me alienum). A
sabedoria dos soberbos trata a questão
humano-futebolística com desdém. Terêncio e o maior
admirador de sua frase não fariam cara feia diante
da polêmica travada em torno do local do segundo
jogo da semifinal do Paulistão.
Avaliada sob escrutínio dos critérios e valores da
vida moderna - aqueles que felizmente sobrevivem
aos freqüentes soluços da barbárie - a controvérsia
político-esportiva foi, no mínimo, pedagógica em
seu significado. O desenvolvimento do
conflito de opiniões, os pronunciamentos das
autoridades, as críticas da mídia permitiram
perceber que, entre o palestrinos, a questão
crucial era a do reconhecimento de seus direitos. O
Palmeiras nada mais fez do que assegurá-los. Ponto,
parágrafo.
Fosse o gesto palmeirense interpretado como uma
“vitória” na “guerra dos bastidores”, alcançada com
o recurso da mobilização de autoridades, não
valeria a pena. Nada valeria, porque, então, a alma
seria pequena. O uso secular do “cachimbo
oligárquico” deixou torta a boca da turma habituada
a tramar ardis nos subterrâneos da política para
ganhar “fora do campo” e massacrar o direito dos
adversários. Remember 1942.
Rejeitamos a “batalha dos pistolões”. Travamos uma
guerra de argumentos, como cabe aos humanos que
aceitam as regras do debate civilizado e
desimpedido, sempre admitindo que os resultados
possam contrariar nossos interesses mais imediatos.
A chamada “mídia palestrina” compreendeu que o
direito de disputar um dos jogos da semifinal no
Palestra não garante a vitória sobre o São Paulo.
Apenas estabelece o princípio básico da disputa
esportiva moderna: a igualdade de condições entre
os competidores.
Nos sites e blogs palestrinos espalhados na
Internet, em muitos deles, percebo esse espírito de
resistência, a recusa à submissão diante dos
poderes que não querem ser interpelados e muito
menos contrariados. Não importa se tais poderes
estão abrigados no aparelho de Estado ou submersos
na maquinaria das grandes empresas de comunicação.
As prepotências da superioridade presumida e da
espetacularização midiática encontram, agora,
resistência na obstinação dos blogs e sites
comprometidos com o esclarecimento de seu público
torcedor.
Se o assunto é futebol, certa dose de maniqueísmo é
quase inevitável. Mas há que conter os exageros. A
maioria, no entanto, sem as pretensões dos “eleitos
do saber e da opinião”, ao falar do jogo da bola e
de seu clube protagoniza a luta pelo reconhecimento
de sua condição de indivíduo livre e sujeito de
direitos.
Há quem diga que o Brasil, ao promulgar a
Constituição de 1988, entrou tardia e timidamente
no clube dos países que apostaram na ampliação dos
direitos e deveres da cidadania moderna. É
uma avaliação equivocada. Submetidos ao longo de
mais de quatro séculos, à dialética do
obscurecimento, aos paradoxos grotescos que regem a
vida política e as relações de poder numa sociedade
de senhoritos e seus asseclas, os brasileiros
começam a desenvolver a autoconsciência própria do
indivíduo moderno.
Sociedade Esportiva
Palmeiras